É possível explicar a morte a uma criança?

Mãe, Jesus desce pelo arco-íris para vir buscar as pessoas que morreram para as levar para o Céu?

Não é difícil imaginarmo-nos a balbuciar quando uma criança nos dispara uma pergunta como esta, seja enquanto a levamos à escola, apressamos o pequeno-almoço ou numa altura mais tranquila. Ao lidar com o desconhecido, o ser humano sempre procurou explicações. As crianças retomam essa procura, através das suas perguntas. O momento da morte de alguém querido é tempo de questões. Há alguma metáfora mágica capaz de acalmar a inquietação? Nem metáfora mágica, nem regra universal.

Sejamos sinceros. A maioria das pessoas tem dificuldade em encarar o mistério da morte. É um tema de que não se fala, e em que não se quer pensar. Um medo inconfessado. No entanto, a morte faz parte da natureza. Aceitar a condição de criatura finita é o primeiro passo para aprender e ajudar a lidar com a morte.

Sendo a morte natural ou abrupta, nunca é possível explicá-la totalmente, dar razões da sua justiça. Por isso, às perguntas difíceis que a criança possa colocar sobre a morte, o melhor não é sempre dar respostas diretas, mas falar-lhe de forma natural, descontraída e verdadeira sobre o pouco que sabemos. Não ter medo de não saber e de dizer que não se sabe.

E o que é que sabemos?

Sabemos que não é o fim. Acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou e que esse é o nosso caminho. Quando uma pessoa de quem gostamos morre, sofremos, temos saudades. Mas sabemos uma coisa muito boa. Quem morre entra numa vida nova junto de Deus. Aí experimenta, para sempre, a alegria de ser acolhida por Deus, de Amar e ser Amada. Nesta nova vida, ninguém está sozinho, vive com a família de Deus Pai e de Jesus. Desta família fazem parte todos os que acolheram o convite de Deus para viver com Ele, aqueles de quem se gostou mais e aqueles de quem não se gostou tanto.

Quando morrem, os nossos familiares e amigos partilham connosco o amor e a alegria que vivem. Nós não os vemos, mas eles estão sempre a ver-nos. Nunca se esquecem de nós. Nós também não nos esquecemos deles e até podemos falar com eles sobre a nossa vida, sobre as coisas boas e más, os momentos mais sérios e os mais divertidos.

Não se deve mascarar a tristeza da criança, ao ponto de não lhe dar a possibilidade de sentir o desgosto. É importante participar do seu sofrimento, chorando com ela e não escondendo a dor que também se sente. No entanto, uma atitude de fé do adulto, aceitando a morte, ajuda a criança a viver com paz este momento.

Também não é bom entrar em grandes dramatismos. O ambiente deve ser sereno, procurando- -se que a vida decorra com toda a naturalidade. À medida que o tempo passa, é bom falar dos que partiram, quando vier a propósito, sem lamechices. Pode-se recordar e celebrar os dias de aniversário, agradecendo as suas vidas.

Não podemos explicar a morte a uma criança. Podemos acompanhá-la e – sem demasiadas palavras – partilhar com ela a esperança.


Domingas Brito e José Maria Brito, s.j.

In Mensageiro do Coração de Jesus, julho 2016

Ilustração: www.damadearroz.com