Quinta-Feira Santa da Ceia do Senhor

Hoje é dia dezoito de abril, Quinta-Feira Santa da Ceia do Senhor.

No centro da liturgia desta Quinta-Feira Santa encontras a mesa. A mesa onde Jesus quis comer a Páscoa com os discípulos, a mesa de todas as refeições abertas onde Jesus acolheu os pecadores, a mesa da eucaristia onde Ele repetidamente Se oferece, a mesa para a qual estás hoje convidado. Se pensares bem, a mesa é a extensão da vida. A tua primeira mesa foram, por exemplo, o colo da tua mãe e os braços do teu pai. A mesa foi sendo, ao longo dos anos, indispensável lugar de reconhecimento e hospitalidade do que és, foi lugar de intercâmbio, território de relação. A mesa tem, por isso, a forma do dom e evoca todos aqueles que nos nutrem. Não entenderemos nada da mesa se a reduzirmos a uma realidade física. A mesa é a concretização do cuidado fundamental pela existência. É o lugar da resposta positiva às necessidades mais elementares e também àquelas que o nosso coração, sedento de amor, exprime. À mesa compreendes que és amado, e podes ouvir a teu respeito: “quero que tu sejas”, “quero que te sintas escutado”, “quero que te deleites com os sabores”, “quero para ti a plenitude”. Hoje é importante que saibas: Jesus convida-te para estar à sua mesa.

Escuta esta passagem da primeira Carta de São Paulo aos Coríntios. [L1 1 Cor 11, 23-26]

Irmãos: Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: «Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim». Do mesmo modo, no fim da ceia, tomou o cálice e disse: «Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim». Na verdade, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha.

Não te alimentas apenas de comida, seja ela o pão, seja ela o vinho e tudo o que ambos representam. Fundamentalmente, alimentamo-nos uns dos outros. Somos alimento uns para os outros – e sentados à volta de uma mesa, nutrimo-nos dessa presença, da palavra, do silêncio, dos gestos, dos olhares, de todas as formas de comunicação explícitas e silenciosas que à volta de uma mesa acontecem. Alimentamo-nos uns dos outros – e se fizeres memória daquilo que te sustenta, do que te recordarás primeiro é da vida dos outros e de como a partilharam contigo. A vida é um pão que se parte e se reparte. Esta mesa de Quinta-Feira Santa é o momento primordial. Acontece isto: Jesus faz da sua vida dom. E diz: "Eu entrego-Me inteiramente a ti e por ti. A ti e por ti empenho tudo o que sou, todas as minhas forças, todas as minhas palavras, tudo... a minha carne e o meu sangue”. É uma dádiva incomensurável que és chamado a integrar e a digerir! Por agora contempla essa dádiva que Jesus te faz. Toma consciência dela, sem pressas. Deixa-te invadir pela gratidão. Por agora, procura habitar simplesmente dentro do dom.

Escuta esta passagem do Evangelho segundo São João. [Ev Jo 13, 12-17]

Jesus, sabendo que o Pai Lhe tinha dado toda a autoridade, sabendo que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-Se da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha, que pôs à cintura. Depois, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha que pusera à cintura. Quando chegou a Simão Pedro, este disse-Lhe: «Senhor, Tu vais lavar-me os pés?» Jesus respondeu: «O que estou a fazer, não o podes entender agora, mas compreendê-lo-ás mais tarde».

Jesus levanta-Se da mesa, despoja-Se do seu manto, coloca uma toalha à cintura e avança decidido para ti. Tem a bacia com água diante do lugar onde estás e mostra-Se disposto a lavar-te os pés. «Senhor, Tu vais lavar-me os pés?» – repetes sem parar no interior de ti. Sentes-te confuso e aturdido como Simão Pedro. O teu primeiro impulso é travar Jesus, dizer-Lhe que não. Este gesto de Jesus para contigo ultrapassa-te: «Tu vais lavar-me os pés?». E então, ouves Jesus garantir-te: «O que estou a fazer, não o podes entender agora, mas compreendê-lo-ás mais tarde». Talvez neste momento preciso da tua vida não entendas Jesus ou te sintas ainda a meio caminho no itinerário da fé. Recorda-te, porém, do que diz Jesus. A compreensão vem depois. Por agora, nutre-te de Jesus: aceita o convite para estar à mesa, aceita o seu alimento, deixa que Ele te lave por inteiro. Deixa Jesus fazer. E confia. E confia ainda.

Depois de lhes lavar os pés, Jesus tomou o manto e pôs-Se de novo à mesa. Então disse-lhes: «Compreendeis o que vos fiz? Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu fiz, vós façais também». [Ev Jo 13,12-17]

A história para a qual Jesus nos desafia é esta: "Torna-te tu mesmo pão para os outros”, "sê alimento", “assim como Eu fiz, fá-lo também”. Quando é que a tua vida se desperdiça e dispersa? Quando não se faz dom. Todo o pão que se fecha em si mesmo perde a sua função, perde a oportunidade de ser pão. Tu alimentas-te de Jesus para que tenhas a ousadia, o amor, a generosidade de fazer também da tua vida dom. Ele dá-te hoje o exemplo. Já o acolheste? Estás disponível para acolhê-lo? E até que ponto estás disponível para isso? Jesus vem sentar-Se, de novo, à mesa, a teu lado. Volta-Se para ti e pergunta: “Compreendeste o que Eu te fiz?” Conserva contigo essa pergunta. Sente-a descer devagar no teu coração. Reza-a as vezes que for necessário.

Senhor Jesus, Tu fazes-me acreditar no Dom. Tu mostras-me que quando o pão se parte chega para todos; que quando a vida se dá, ela, finalmente, ativa a sua potencialidade e se torna mais vida. Tantas vezes achamos que não podemos fazer coisa nenhuma ou que, na nossa pobreza, não temos nada para dar. Tantas vezes desacreditamos do dom. Mas tu vens ao nosso encontro para que vivamos da compreensão profunda de que a nossa vida só é feliz, só é verdadeiramente plena se for dom. Isto é, se aceitar ser eucaristia. «Isto é o meu Corpo, entregue por vós... Este é o cálice da nova aliança no meu Sangue... Fazei isto em memória de Mim».

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Ámen.