Sexta-feira da Paixão do Senhor

Hoje é dia catorze de abril, Sexta-feira da Paixão do Senhor.

Onde há um crucificado há uma multidão que o rodeia. E podem ser muitos os motivos e a atitude de quem se põe a seguir, estrada fora, um homem que vai ser crucificado. Há os que realizam a tortura ou maquinalmente garantem que a execução é cumprida. Há os curiosos que se saciam com o espetáculo e mantêm uma distância calculada em relação à vítima. Há os desconhecidos que sentem uma empatia por aquele sofrimento e lhe oferecem a compaixão. E há os parentes e amigos do que vai ser supliciado, que permanecem ao lado dele, sentindo como seu todo aquele drama. Onde há um crucificado há uma multidão que o rodeia. Pensa que estás também ali. Pensa qual é o teu lugar.

A palavra paixão tem dois sentidos: significa tanto um sofrimento devastador, como uma intensa experiência de amor. A paixão de Jesus tem ambos os sentidos. É a história do processo dolorosíssimo que antecedeu a sua morte: podes vê-lo abatido, desfigurado e a sucumbir como o homem das dores. Mas este é também o relato do seu extraordinário amor: podes vê-lo a dar a sua vida, a oferecê-la como dom gratuito, sem estar à espera que a tirem. Há, de facto, uma maneira de não sofrer: é não amar. Essa, contudo, não é a forma que Jesus desejou para a sua existência. Nem é a forma que Ele deseja para a tua. 

 

Escuta esta passagem do Evangelho segundo São João. [Ev Jo 18, 1-19, 42]

Jesus saiu com os seus discípulos
para o outro lado da torrente do Cedron.
Havia lá um jardim, onde Ele entrou com os seus discípulos.
Judas, que O ia entregar, conhecia também o local,
porque Jesus Se reunira lá muitas vezes com os discípulos.
Tomando consigo uma companhia de soldados
e alguns guardas,
enviados pelos príncipes dos sacerdotes e pelos fariseus,
Judas chegou ali, com archotes, lanternas e armas.
Sabendo Jesus tudo o que Lhe ia acontecer,
adiantou-Se e perguntou-lhes:
«A quem buscais?».
Eles responderam-Lhe: «A Jesus, o Nazareno».
Jesus disse-lhes: «Sou Eu».
Então, a companhia de soldados,
o oficial e os guardas dos judeus
apoderaram-se de Jesus e manietaram-No.
Levaram-No primeiro a Anás,
por ser sogro de Caifás,
que era o sumo sacerdote nesse ano.
Caifás é que tinha dado o seguinte conselho aos judeus:
«Convém que morra um só homem pelo povo».
Entretanto, Simão Pedro seguia Jesus com outro discípulo.
Esse discípulo era conhecido do sumo sacerdote
e entrou com Jesus no pátio do sumo sacerdote,
enquanto Pedro ficava à porta, do lado de fora.
Entretanto, o sumo sacerdote interrogou Jesus
acerca dos seus discípulos e da sua doutrina.
Então Anás mandou Jesus manietado
ao sumo sacerdote Caifás.
Depois, levaram Jesus da residência de Caifás ao pretório.
Era de manhã cedo.

 

Pontos de oração

Vêm “com archotes, lanternas e armas” procurar Jesus para manietá-lo. Mas os Evangelhos falam de outras procuras. Procurou-o Zaqueu quando subiu ao sicómoro. Procurou-o a mulher pecadora quando trouxe o perfume à casa do fariseu. Procuraram-no o cego e o leproso. Procuraram-no os discípulos quando a tempestade crescia e a embarcação se afundava. Procuraram-no Marta e Maria quando o irmão Lázaro ficou doente. Procurou-o Nicodemos e os aldeões a quem a samaritana contou a sua história. Procurou-o o jovem rico e o mendigo cego do caminho de Jericó. “A quem procurais?” – perguntou Jesus aos que o foram prender. Toma esta pergunta na tua oração. Sim, a quem procuras? E vens à procura de Jesus para quê?

 

Parte 2

Pilatos disse-lhes:
«Eis o homem».
Quando viram Jesus, os príncipes dos sacerdotes e os guardas gritaram:
«Crucifica-O! Crucifica-O!».
Disse-lhes Pilatos:
«Tomai-O vós mesmos e crucificai-O,
que eu não encontro n’Ele culpa alguma».
Responderam-lhe os judeus:
«Nós temos uma lei e, segundo a nossa lei, deve morrer,
porque Se fez Filho de Deus».
Quando Pilatos ouviu estas palavras, ficou assustado.
Era a Preparação da Páscoa, por volta do meio-dia.
Disse então aos judeus:
«Eis o vosso rei!».    
Mas eles gritaram:
«À morte, à morte! Crucifica-O!».
Disse-lhes Pilatos:
«Hei de crucificar o vosso rei?».
Replicaram-lhe os príncipes dos sacerdotes:
«Não temos outro rei senão César».
Entregou-lhes então Jesus, para ser crucificado.
E eles apoderaram-se de Jesus.
Levando a cruz,
Jesus saiu para o chamado Lugar do Calvário,
que em hebraico se diz Gólgota.
Ali O crucificaram, e com Ele mais dois:
um de cada lado e Jesus no meio.
Pilatos escreveu ainda um letreiro
e colocou-o no alto da cruz; nele estava escrito:
«Jesus, o Nazareno, Rei dos Judeus». 

 

Pontos de oração

“Eis o Homem”. São palavras ditas pela primeira vez há dois mil anos e que ficaram a ressoar nos séculos. Não houve, depois dessa primeira vez, dia nenhum em que essas palavras não fossem recordadas. Porque o seu sentido é esse. Recordar-te quanto Jesus é solidário com a tua humanidade e com a de todos os homens. Ele coloca-se incondicionalmente a teu lado, carrega sobre si o que foste, o que és e o que serás; dispõe-se a cuidar de todos os sofrimentos possíveis; prepara-se para ligar todas as feridas. É nessa solidariedade que Jesus te salva, que te chama seu, que te diz: “tu estavas perdido e eu encontrei-te; tu estavas como morto e eu chamei-te de novo à vida”. 

 

Parte 3

Estavam junto à cruz de Jesus
sua Mãe, a irmã de sua Mãe,
Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena.
Ao ver sua Mãe e o discípulo predileto,
Jesus disse a sua Mãe:
«Mulher, eis o teu filho».
Depois disse ao discípulo:
«Eis a tua Mãe».
E a partir daquela hora, o discípulo recebeu-a em sua casa.
Depois, sabendo que tudo estava consumado
e para que se cumprisse a Escritura,
Jesus disse: «Tenho sede».
Estava ali um vaso cheio de vinagre.
Prenderam a uma vara uma esponja embebida em vinagre
e levaram-Lha à boca.
Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou:
«Tudo está consumado».

 

Ponto de oração

Jesus tem sede. Parece que a sua história está quase a consumar-se. Mas pouco antes do fim ele diz ainda: “tenho sede”. Como interpretas esta palavra? A sede de Jesus foi apenas a sede daquela hora trágica ou é uma sede que se prolonga no tempo e hoje é recordada precisamente a ti, para que a escutes de uma maneira nova? Jesus tem sede de quê? Tem sede de quem? Sejam estas perguntas pontos da tua oração. Deixa-as flutuar dentro de ti, sem pressas, sem temores, sem condicionar nada. Hoje Jesus diz-te: “Tenho sede”. 

 

Colóquio final

Estou junto da cruz: transforma o meu olhar, Senhor. Que meus olhos compreendam a natureza do amor que daqui avisto nos teus. Estou junto da cruz, Senhor: que o meu pensamento não mais se confine em redor de mim, mas aprenda a largueza do teu. Estou junto da tua cruz: ajuda-me a perder o medo da minha. Ensina-me a ser o grão que morre para frutificar. Inicia-me na escola do dom. Estou hoje junto da cruz, Senhor, e isto te peço: desloca o meu coração até junto do teu.

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
Como era no princípio, agora e sempre. Ámen.