Sexta-Feira Santa da Paixão do Senhor

Hoje é dia dezanove de abril, Sexta-Feira Santa da Paixão do Senhor.

É impressionante aquilo que hoje podes saber: que os Evangelhos começaram a ser escritos a partir do relato da Paixão; que antes de estarem constituídos os Evangelhos tal como chegaram até nós, já existia como seu embrião a narrativa da Paixão. Por isso, quando se reuniam os primeiros cristãos era para recordar a Paixão do Senhor. Ela é, de facto, o núcleo vital de tudo aquilo que diz respeito a Jesus. E é a história que te funda, que te dá identidade, que te faz ser. Conscientes ou não, nós cristãos somos uma consequência da Paixão de Cristo. Dispõe, por isso, o teu coração a acolhê-la. Talvez ainda não te tenhas verdadeiramente confrontado com ela. Talvez ainda não a tenhas encarado como uma história que te diz respeito, dirigida especialmente a ti. Deixa-te então surpreender e emocionar como se tateasses esta história pela primeira vez. Como se, dentro de ti, ela estivesse a acontecer em direto, neste preciso momento. E tu acompanhasses Jesus nesta sua hora que Ele torna também tua.

Escuta esta passagem da Carta aos Hebreus. [L 2 Heb 4, 14-16]

Irmãos: Tendo nós um sumo sacerdote que penetrou os Céus, Jesus, Filho de Deus, permaneçamos firmes na profissão da nossa fé. Na verdade, nós não temos um sumo sacerdote incapaz de Se compadecer das nossas fraquezas. Pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, exceto no pecado. Vamos, portanto, cheios de confiança, ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia.

A Paixão de Jesus atesta a verdade fundamental do seu amor, que não é um amor abstrato ou sem destinatário: é um amor a ti. É um amor real que podes experimentar qualquer que seja o momento que estejas a viver. Jesus vive a sua Paixão como um ato de compaixão profunda, gratuita e sem medida por ti. Jesus abraça a tua condição, a tua inconsistência, abraça o que gostas e o que não gostas em ti, abraça o que lamentas que tenha acontecido ou que simplesmente não tenha chegado. Jesus aceita ser provado em tudo para abraçar tudo em ti. E neste dia em que celebramos a sua Paixão é Ele que te diz: "Eu estive sempre a teu lado, Eu estava a teu lado mesmo quando não sabias, nunca estive longe de ti, nunca nada te separou do meu amor". Como diz a Carta aos Hebreus: “Vamos, portanto, cheios de confiança, ao trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia”.

Esta passagem do Evangelho segundo São João é uma das chaves para entender a Paixão de Jesus. Escuta-a. [Ev Jo 19, 28]

Depois, sabendo que tudo estava consumado e para que se cumprisse a Escritura, Jesus disse: «Tenho sede».

Quantos acontecimentos dramáticos estão resumidos neste rápido advérbio “depois”! No teu coração certamente conheces todos esses episódios: a angústia que antecedeu a prisão de Jesus, o estranho julgamento onde a sua inocência não foi tida em conta, as humilhações infligidas pelos soldados, o dolorosíssimo caminho da cruz, e, por fim, a própria cruz onde foi pregado. E “depois” de tudo isto, este grito, «Tenho sede», que fica a ecoar. Outras vezes, no Evangelho de João, Jesus foi ao encontro dos que tinham sede e disse: «Quem beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede»; ou «Se alguém tem sede, venha a Mim; e quem crê em Mim que sacie a sua sede!». Mas neste passo do texto da Paixão é o próprio Jesus que afirma «Tenho sede», e esta sua declaração apresenta-se no tempo presente, como que a explicar-nos que a sede de Jesus é atual e interminável. O que lança um convite aos que têm sede, Ele mesmo está devorado pela sede. Tem sede de quê, Jesus? Tem sede de ti, tem sede da tua fé, sede da tua presença, sede do teu sim, tem sede de dar-te a beber da sobreabundância do seu amor. A sede de Jesus ilumina e responde à sede que tu tens de Deus, à carência de verdade que te habita, ao desejo de salvação que subsiste em ti – mesmo se é um desejo oculto ou soterrado por feridas e escombros.

Escuta esta passagem do Evangelho segundo São João. [Ev Jo 19, 29-30.35]

Estava ali um vaso cheio de vinagre. Prenderam a uma vara uma esponja embebida em vinagre e levaram-Lha à boca. Quando Jesus tomou o vinagre, exclamou: «Tudo está consumado». E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. Aquele que viu estas coisas é que dá testemunho delas e o seu testemunho é verdadeiro. E ele bem sabe que diz a verdade, para vós crerdes também.

Jesus diz que tem sede e há quem Lhe aproxime da boca uma esponja embebida em vinagre. Também nós tantas vezes não entendemos Jesus. E é bem possível que, em particular, sobre a sua paixão nós não O compreendamos neste momento ou não O tenhamos compreendido ainda. Repara na sucessão destes dois elementos: primeiro Jesus diz «Tenho sede», depois «inclinando a cabeça, entregou o espírito». Que quer dizer «entregou o espírito»? Uma interpretação apressada vê apenas uma forma de dizer que expirou. Se nos detivermos mais profundamente perceberemos, porém, que é mais do que isso: «entregar o espírito» é passar, é transmitir a outros o Espírito. O Espírito da Verdade, o Consolador, o Recriador, Aquele que dentro de ti defende a Boa-Nova de Jesus. O Espírito é o dinamismo do Ressuscitado em ti. O Espírito é a continuação desta história, que não acaba aqui, porque o Espírito Santo, a força de Deus, o vento, o sopro, o hálito, o alento estão a ser dados a ti. Como escreveu o filósofo Blaise Pascal, “a paixão de Jesus permanecerá em aberto até ao fim dos tempos”.

Podes estar a perguntar-te: “Por que é que Jesus salvou os outros e não Se salva a Si mesmo?”. Porque essa, tu sabes, é a regra radical do amor: para salvar os outros, temos de nos esquecer de nós próprios. Para colocar os outros em primeiro lugar, para levar os outros aos ombros, para encher os outros do excesso de amor que é a misericórdia, para dar vida aos outros, para entusiasmar os outros, tantas vezes temos de ficar para trás, temos de ficar em último lugar, temos de permanecer em silêncio, temos de dar o que temos e o que não temos, temos de esvaziar-nos, temos de ficar sem nada, temos de aceitar morrer. Tu sabes bem, e essa é também a lição da Paixão de Jesus: para poder dar aos outros a vida, tens de aceitar gastar e perder a tua. Coloca-te agora diante de Jesus e da sua Paixão. Estás tu e Jesus. Não são necessárias palavras, nem imagens. Desarma o teu coração, esvaziando-o de pensamentos e de razões. Abre devagar e sem receio as tuas mãos vazias. Permanece assim o tempo que for preciso. Estás tu e Jesus. Torna as tuas mãos côncavas, como quem se dispõe a receber. E recebe o que Ele te quiser dar.

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. Como era no princípio, agora e sempre. Ámen.