A oração está muito perto de ti

Se fizéssemos um inquérito sobre a importância da oração a todos os que se dizem cristãos, cremos que a resposta seria quase unânime: todos ou quase todos responderiam que era importante ou muito importante. Parece assim ser claro que a oração ocupa lugar na vida e nas preocupações de quantos se reveem  em Jesus Cristo e no seu estilo de vida. Esta questão é, nos nossos dias, uma questão pacífica.

Se a pergunta, em vez de ser sobre a importância da oração, for sobre a sua prática, a resposta já não será tão unânime. Muitos dirão que rezam todos os dias, outros que o fazem muitas vezes e haverá gente que responderá que nunca ou raramente o faz. Mas, como dissemos antes, uma grande maioria responderá que, apesar de tudo, a oração é mesmo muito importante e até dirá mais: que ela é fundamental.

Num primeiro olhar sobre as perguntas e as respostas, ficaremos com a impressão de que são contraditórias as respostas, apesar de as perguntas irem no mesmo sentido. Revelarão alguma incoerência e mostrarão a distância que, tantas vezes, neste e noutros âmbitos da vida cristã, vai entre a teoria e a prática, entre o que dizemos ser importante e o que realizamos. No entanto, não nos ponhamos já a julgar ou a recriminarmo-nos e tentemos ir um pouco mais longe sobre a importância que dizemos a oração ter, sobre a sua prática, perguntando-nos porquê esta divergência, para além, claro está, daquela que deriva da nossa fragilidade, da nossa natureza terrena.

Com facilidade ouviremos falar das dificuldades em rezar. As razões dadas serão as mais diversas: falta de tempo, não saber rezar, não ter um lugar para o fazer, frequentes distrações, etc., etc.

Temos que aceitar estas respostas. São dificuldades reais que as pessoas sentem no momento em que pensam sobre a oração. Não podemos de imediato desvalorizar o que nos foi dito. Mas, muitas vezes, o que acontece é que as pessoas têm uma conceção  da oração como coisa muito complicada, afastada da normal vida de cada dia, que exige muito tempo, domínio de técnicas e também algo reservado a uma elite, na sua maioria, feita de padres e de freiras.

Esta é a primeira coisa que temos, agora, de fazer: descomplicar a oração, a sua prática. Libertá-la dos muros que a impedem de ser aquilo que é – relação com Deus – e fazê-la chegar ao nosso dia a dia como algo tão simples como as pequenas atividades  que preenchem o nosso quotidiano. Habitualmente, desvalorizamos os pequenos gestos de cada dia, as diferentes atividades  que realizamos sem quase nos darmos conta do que estamos a fazer. E, no entanto, é no realizar de cada um destes gestos que estamos a delinear o que é, de facto, a nossa vida.

Em lugar oposto, «hipervalorizamos» de tal modo o que chamamos oração, por acharmos que é uma coisa tão sublime e tão diferente, para melhor e mais importante, das «corriqueiras» atividades  do dia a dia, que levantamos muros à sua presença na nossa vida, achando-nos impreparados, indignos, longe de Deus, pecadores. Criamos, desta forma, uma distância enorme entre o desejo de rezar que sentimos e a sua prática. E quanto maior é esta distância, maior se nos afigura a importância da oração, mas também, ao mesmo tempo, a impossibilidade de algum dia ela fazer parte normal do nosso quotidiano existir.

Talvez pareça um atrevimento se lhes disser que orar é tão natural como respirar. Pensemos um pouco: alguém nos ensinou a respirar? Por vezes, temos que aprender a controlar o modo como respiramos, como, por exemplo, quando nadamos. Mas não aprendemos a respirar, aprendemos sim modos de o fazer e que nos ajudam a realizar melhor uma determinada atividade .

Também no que diz respeito à oração, podemos dizer que ninguém nos ensinará a rezar. O que farão é dizer-nos como eles o fazem, o que foram descobrindo, o que é que os ajudou ou prejudicou no momento em que se puseram a rezar, o que é que experimentaram, o que é que dali tiraram para as suas vidas. Mas para sabermos o que é rezar, teremos que ser nós a parar, diante de Deus, e a experimentar.

Escutando uma grande orante, Santa Teresa de Jesus, ela dir-nos-á: «Para encontrar a Deus não é importante ter asas, mas sim pôr-se a sós e olhar bem dentro de si». Todos estes elementos se encontram em nós. Estão em nós desde o primeiro momento da nossa existência.

Parafraseando uma passagem do livro do Deuteronómio e aplicando-a à oração, poderemos dizer: «A oração está muito perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a praticares» (cf. Dt 30, 14).

Sérgio Diz Nunes, sj

(Fotografia de: Thomas Vitali - unsplash.com)