A oração da Igreja recebeu, no andar dos tempos, vários nomes: oração das Horas; serviço divino; obra de Deus; oração do tempo presente.
Todos estes termos, e outros mais, sugerem que a oração é obra permanente do Espírito e que vem santificar e como que «sacralizar» o tempo do homem. Se é dada, a oração também tem que «ser feita»; é, de alguma forma, um trabalho que pode custar, mas o misterioso trabalho interior que se realiza em segredo tornará o homem mais verdadeiro, mais livre e mais permeável à graça das bem-aventuranças. A oração da Igreja é a homenagem prestada a Deus, o serviço cumprido para com todos os homens e todas as mulheres do nosso tempo; ela é o lugar de uma caridade viva, o lugar e o laço da comunhão numa mesma esperança.
De noite como de dia, a oração é a respiração do tempo e da vida do homem; ela dá-lhe o ritmo e o canto. O livro da oração rediz ao crente o desejo que Deus tem de santificar o tempo, de revestir com o seu sopro toda a hora que passa, para que ela se escoe em amor e em dom. A oração do tempo presente irriga a terra dos homens no louvor da manhã e no canto do meio-dia, à hora em que cai a tarde e quando as cidades adormecem. Quatro momentos da oração, para um único tempo: o tempo presente oferecido à oração.
Houve um fim de tarde… Vésperas – Oração da tardinha
A voz dos Salmos leva em si a voz dos homens de todos os tempos; ela confia a Deus as alegrias ou as aflições do coração, apresenta a Cristo o peso do dia e o labor do mundo, os combates da vida e as dores do corpo; une-se à esperança dos séculos e invoca a misericórdia de Deus. À hora da tardinha, a oração suplica e invoca o perdão; contempla o Amor crucificado, o fruto maduro e entregue sobre a árvore da cruz; proclama a sua fé na Vida mais forte que a morte e o mal.
O cântico do fim da tarde celebra Cristo e canta o mistério da nova aliança selada no seu sangue. A oração deixa entrar nela, a jorros, as palavras e a alegria da salvação. Com Maria, entoa o «Magnificat», o canto mais poderoso e mais humilde jamais brotado do coração do homem. A confiança deste canto instrui a litania que se segue, longa intercessão pela Igreja e pelo mundo, por todos os homens em provação.
O Deus de Jesus Cristo estende a sua bênção sobre todos os povos, oferece a sua paz na brisa do entardecer. A sua claridade não se extingue com o dia que passa; quando sobe para Deus o ruído da nossa terra, os corações apaziguam-se, pouco a pouco, e recebem a consolação do Mestre interior. A Igreja, uma e outra vez, reza e dá graças.
P. Jean-Marie Dezon, in b. a. - ba da oração, Editorial AO 2016
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