D. Manuel Clemente: os frutos do AO "reaparecerão" com a RMOP

Cem mil pessoas estiveram presentes na Eucaristia da Peregrinação Nacional do Apostolado da Oração (AO) ao Santuário de Fátima, que se realizou no domingo, dia 20 de outubro. A celebração encerrou as comemorações dos 175 anos desta Obra Pontifícia, agora com o nome de Rede Mundial de Oração do Papa (RMOP), e o Ano Missionário, convocado pela Conferência Episcopal Portuguesa.

A Eucaristia foi presidida pelo cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, e concelebrada por 39 bispos, incluindo o cardeal D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, e por 200 sacerdotes.

O Apostolado da Oração, “movimento que mais se espalhou nas paróquias portuguesas” nos meados do século XIX e durante a primeira metade do século XX, garantiu “a vida da fé” em períodos “particularmente difíceis para a própria sobrevivência das comunidades cristãs”, referiu D. Manuel Clemente.

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa disse que nos nossos dias, a conexão entre oração e apostolado “relançou a Igreja e a missão”, como “o quis recentemente o Papa Francisco, retomando-o como Rede Mundial de Oração do Papa”. “Os mesmos frutos reaparecerão decerto”, exortou.

Em vez de uma pastoral “de mera conservação”, “é necessária uma pastoral decididamente missionária”, apontou D. Manuel Clemente, acrescentando que a missão exige “mais capacidade de escuta” e “mais disponibilidade” para o diálogo, “ouvindo o que nos dizem e dizendo o que nos cumpre”. O cardeal-patriarca pediu “mais oração” e “mais missão” aos presentes. Ambas “andam a par” e enriquecem-se mutuamente, sustentou.

No final da Eucaristia, as dioceses portuguesas foram consagradas ao Sagrado Coração de Jesus diante do monumento localizado no centro do recinto do Santuário de Fátima com a seguinte oração:

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Aprofundar o caminho do Coração de Jesus

Na véspera da peregrinação, perante uma plateia de 600 membros do Apostolado da Oração, decorreu o colóquio “Apóstolos do Coração”, subordinado ao tema do Coração de Jesus. A sala do Bom Pastor, no Centro Pastoral de Paulo VI, em Fátima, tornou-se pequena para tantos interessados em aprofundar os temas relacionados com a espiritualidade do Coração de Jesus, as expressões bíblicas e os santos relacionados com a devoção, os Corações de Maria e de Jesus na Mensagem de Fátima e a associação entre pátria, nacionalidade e o Coração de Jesus.

O colóquio abriu com a comunicação de D. José Ornelas, bispo de Setúbal, que, passando em revista expressões do Antigo e do Novo Testamento, revelou as raízes bíblicas da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. O prelado concluiu que é a partir da contemplação e da escuta silenciosa que se abre caminho para a ação do “Espírito de Deus”, que transforma à sua luz e faz surgir um “novo ser humano” com novas atitudes “de humanização e de compromisso missionário”.

A vida das beatas Rita Amada de Jesus, Maria do Divino Coração e Alexandrina de Balazar foram objeto de estudo do padre Manuel Morujão, sj, que realçou a promoção da devoção ao Coração de Jesus nos relatos das suas vidas.

O padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário de Fátima, sublinhou o caráter “íntimo e insolúvel” da “inseparabilidade dos Corações de Maria e de Jesus”, revelados nos testemunhos de vida dos Pastorinhos de Fátima. O santuário é, há cem anos, centro de difusão da devoção aos dois Corações, como atesta o monumento ao Sagrado Coração de Jesus, erigido no centro do recinto, em frente à Capelinha das Aparições.

O culto do Sagrado Coração de Jesus está associado à representação de Portugal, a partir da sua matriz católica, nos símbolos nacionais. Esta ideia foi apresentada por Sérgio Pinto, professor doutorado em História e investigador no Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa. Se numa primeira fase, a implantação da devoção coincidiu com o período de revoltas que conduziram ao colapso do Antigo Regime, numa segunda fase tratou-se de uma adesão espiritual dos crentes contra os regimes totalitários do mundo. Hoje em dia, no contexto de uma “nova ordem de valores”, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus implica o crente na construção da “dignidade do ser humano”.

O padre José Frazão, sj, Provincial da Companhia de Jesus em Portugal, defendeu, no último painel, a necessidade de encontrar os tesouros ainda não revelados da devoção ao Sagrado Coração de Jesus ao mundo e “à fé cristã”.

Dedicando-se ao tema “Atualidade da espiritualidade do Coração de Jesus e desafios pastorais”, insistiu que é fundamental renovar a devoção de forma “sensível e sensata” para ser reconhecida e apreciada pelos homens e mulheres de hoje. Para não serem vistos como “raros, alienados e fechados”, os crentes devem libertar-se de práticas que não se adequam ao século XXI. Neste sentido, a adoração do Sagrado Coração “precisa de ter liberdade e coragem para dizer adeus a si mesma”, reinventando-se. “As imagens 'kitsch' que deixaram de mostrar o afeto essencial tornaram-se indiferentes para muitos que passam ao largo destas imagens, ridicularizando ou rejeitando”, apontou.

Não basta “repetir-se a si mesmo”, é preciso “propor novas leituras e contextos” sob o perigo de deixar de “ser símbolo para ser imagem descolorada, imagem abstrata de um amor incapaz de tocar a vida dos crentes”.

A devoção ao Sagrado Coração de Jesus tem de promover uma “fé viva e sensata, que vive e faz viver”, sustentou o Provincial dos Jesuítas de Portugal.


Fotos: Santuário de Fátima; Betânia Ribeiro – RMOP Portugal; João Fernandes/OMP