Estamos tão habituados a ter tudo com um simples querer e ir ao supermercado comprar que, muitas vezes, convencemo-nos que também é assim na vida espiritual e, concretamente, na oração.
No entanto, na oração, não é assim. Em oração não se entra, vai-se entrando, pouco a pouco, podendo ir sempre mais longe. Num itinerário que exige tempo, saber esperar e consciência de que o mais importante não parte nem depende de nós.
Quando pensamos e falamos de oração, temos que necessariamente colocar Deus no centro. Ele e a sua ação são o mais importante. Sem Ele, não podemos falar de oração. Falaremos de introspeção, de análise e ponderação de pensamentos e desejos mas, de facto, não poderemos falar de oração. Oração é aquilo que em nós acontece quando nos pomos na Presença de Deus, sob o seu olhar e à sua escuta.
Depois de termos escolhido um lugar, um momento e uma duração e de nos termos colocado numa posição cómoda, o primeiro passo, verdadeiramente importante, será o de nos tornarmos presentes a Deus.
Não nos preocupemos com o que havemos de fazer ou dizer, questões que, muitas vezes, se tornam obstáculos à nossa oração. A oração não é principalmente uma questão de fazer o que quer que seja ou de saber falar muito bem. Começa por ser um aceitar tornar-me presente perante Deus, naquilo que verdadeiramente sou, olhar bem dentro de mim e pôr-me à escuta.
Tornar-me presente
Com facilidade afirmamos que Deus é omnipresente. É verdade, mas o que significa isso para nós, que alcance tem para o nosso viver de cada dia? Na maioria das vezes, é um simples dizer sem qualquer outra implicação. Também, muitas vezes, esta proclamada presença de Deus é interpretada, antes de mais, como uma vigilância nem sempre amorosa.
São Paulo, no Areópago, em Atenas, fala admiravelmente desta Presença: «O Deus que criou o mundo e tudo quanto nele se encontra, Ele, que é o Senhor do Céu e da Terra, não habita em santuários construídos pela mão do homem, nem é servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa, Ele, que a todos dá a vida, a respiração e tudo mais. Fez, a partir de um só homem, todo o género humano, para habitar em toda a face da Terra; e fixou a sequência dos tempos e os limites para a sua habitação, a fim de que os homens procurem a Deus e se esforcem por encontrá-Lo, mesmo tateando, embora não Se encontre longe de cada um de nós. É n’Ele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos, como também o disseram alguns dos vossos poetas: "Pois nós somos também da sua estirpe"» (At 17, 24-28).
Esta omnipresença de Deus é o cenário onde se recorta o nosso existir e, por isso, parece-nos fazer mais sentido falar em tornarmo-nos presentes a Deus do que em colocarmo-nos na presença de Deus. Revela-se-nos assim Deus não só como aquele que está sempre connosco mas, antes de mais e depois de tudo, como o nosso ambiente vital. Cremos que a partir deste momento podemos falar de oração.
Deixar-me olhar
Após uns momentos iniciais, neste tornar-me presente a Deus, é importante que me deixe olhar por Ele. Não é um exercício fácil, pelo menos de início, mas com o decorrer do tempo cremos que virá a ser um momento extraordinariamente libertador e consolador. Um momento que nos convidará ao silêncio e nos mostrará que, antes de mais, somos amados, queridos por Deus. Nós só conseguimos estar verdadeiramente em silêncio sob o olhar de alguém quando nos sentimos, de alguma forma, estimados por esse alguém. É importante que não tenhamos pressa e que aceitemos estar à mercê daquele olhar na nossa condição frágil, que conhecemos como ninguém, no nosso dia a dia. Deixarmo-nos olhar é deixarmo-nos amar.
Deixarmo-nos amar mesmo naquelas coisas que não consideramos amáveis e que temos dificuldade em aceitar que existam em nós. Percebemos assim que o amor de Deus, ao contrário do nosso, é total e absoluta gratuidade. É aqui que começamos a aprender o ponto de partida da oração: a resposta a um apelo de Deus, no nosso coração, a estarmos com Ele e a deixarmo-nos amar como realmente somos. Nisto consiste o amor de Deus, que Ele nos amou primeiro (1 Jo 4, 7).
Desta maneira se explica a sede de rezar que experimentamos no nosso dia a dia. É Ele que, do mais profundo de nós e desde sempre, balbucia o nosso desejo de estar com Deus. A partir daqui, dá-se a relação num deixarmo-nos amar que nos levará a querer amar cada vez mais.
Sérgio Diz Nunes, sj
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