Parar

Uma das razões mais apontadas para não se rezar é a da falta de tempo. Muitas pessoas dizem que, de facto, gostariam de rezar mais, que até têm vontade de fazer oração mas não conseguem encontrar tempo para a fazer. O seu dia a dia  é muito preenchido, desde que se levantam até que se voltam a deitar, correm de um lado para o outro, têm mil e um afazeres e quando encontram algum tempo veem-se cansadas e sem disposição para rezar.

Acresce a este estilo de vida, tão dos nossos dias, do nosso mundo, das nossas gentes, uma exigência cada vez maior de rapidez. Se demoramos mais a arrancar quando o semáforo verde se acende, logo escutamos uma apitadela de quem está atrás de nós. Se não respondemos ao email imediatamente após o ter recebido, questionam-nos se está tudo bem. Se não atendemos a toda a hora e momento o telemóvel, perguntam-nos para que é que o queremos... Vamos assim vivendo cada vez mais pressionados pelo alucinante frenesim exterior do nosso dia a dia.

Mesmo quando chegamos a casa, após um esgotante dia de trabalho, como que sentimos a obrigação, necessidade, de ligar a televisão que temos na cozinha, na sala e no quarto. E as mensagens e os emails que em movimento ininterrupto chegam ao nosso telemóvel não permitem muitas vezes que estejamos um pouco em paz ou em salutar convívio com a nossa família ou com os nossos amigos. Numa palavra, parece que estamos ligados à corrente e não conseguimos desligar. Vamos perdendo o sentido do gratuito e do repousante desfrutar da convivência humana.

Vivemos, desta forma, continuamente voltados para o exterior, sem termos de facto tempo para nós, para o nosso mundo interior. Temos, pois, razão quando dizemos que gostaríamos de rezar mas que não conseguimos encontrar momentos para o fazer.

Se pararmos, o quê?... Se pararmos e pensarmos um pouco, veremos que ontem, tal como hoje, o dia continua a ter as mesmas vinte e quatro horas de sempre. Não é propriamente falta de tempo que temos mas sim, e antes de mais, incapacidade de parar, de quebrar o ritmo viciante que nos leva a saltar e correr de uma coisa para a outra. E sem parar para olhar para dentro, não rezaremos.

Sem parar, não seremos capazes de dar a atenção necessária ao nosso mundo interior, de onde nos vem o desejo de rezar, de estar mais com Deus. Reconheçamos que é mesmo difícil parar. Esta falta de tempo é, no fundo, incapacidade de quebrar o ritmo quotidiano do nosso viver, de criar espaços de gratuidade e de lazer, de não obedecer a uma lógica utilitarista e mercantilista que tudo mede pelo chavão: tempo é dinheiro.

Parece-nos claro que a primeira coisa que temos de fazer se, de facto, queremos rezar é: Parar! E não pensemos que é fácil fazê-lo. De facto, é verdadeiramente difícil, mas não é impossível. Parar um pouco. Não pensemos em meia hora, ainda menos numa hora, mas decidamo-nos a parar cinco ou dez minutos, não mais, para começar.

De mão dada com esta dificuldade anda um receio tão ou mais antigo: o de olhar para dentro de nós. Por dois motivos: um, porque não estamos habituados e o mundo em que vivemos tende a solicitar-nos de fora e para fora. Outro, porque muitas vezes temos medo de nos confrontarmos com o que se passa dentro de nós, com o que experimentamos e/ou sentimos.

Este temor vê-se, nos nossos dias, particularmente agravado porque a nossa cultura sobrevaloriza a imagem, o exterior em detrimento do ser, do interior. O parecer e o aparecer afiguram-se-nos como sendo o mais importante, chegando mesmo a dizer-se que «quem não aparece não é». Mas se queremos rezar teremos também, necessariamente, que lutar contra esta tendência, esta tentação, e aceitar olhar para o nosso mundo interior. O mundo dos nossos desejos, dos nossos sonhos, dos nossos amores, do nosso querer. É aí que Deus nos habita e fala em primeiro lugar, é aí que, antes de mais, teremos que parar.

Santo Agostinho exprime de forma sublime esta busca e esta luta: «Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! E eis que estavas dentro de mim e eu fora, e aí te procurava, e eu, sem beleza, precipitava-me nessas coisas belas que tu fizeste. Tu estavas comigo e eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti aquelas coisas que não seriam, se em ti não fossem. Chamaste, e clamaste, e rompeste a minha surdez; brilhaste, cintilaste, e afastaste a minha cegueira; exalaste o teu perfume, e eu respirei e suspiro por ti; saboreei-te, e tenho fome e sede; tocaste-me, e inflamei-me no desejo da tua paz» (Confissões X, 27, 38).

 

Sérgio Diz Nunes, sj

(Fotografia: Debby Hudson – unsplash.com)