Que imagem de Deus?

Uma das dificuldades quando queremos rezar tem a ver com Deus. De facto, Ele tem as costas muito largas e também aqui pode apanhar, pelo menos, com uma parte das culpas de não rezarmos. Quanto mais não seja, Ele tem sempre que estar presente e por isso alguma culpa terá dos meus desejos de rezar demorarem tanto a concretizar-se. Por vezes, até achamos que Ele é o principal interessado e, de facto, sem Ele não poderemos falar de oração.

Quando somos desafiados a parar e a olhar para dentro de nós, estamos a ser convidados a encontrar-nos com Deus, a colocar-nos na sua presença. E é aqui que começam as dificuldades. «Parar», até nos esforçamos; «olhar para dentro de nós», com maior ou menor dificuldade, lá vamos tentando; mas fazer tudo isto diante de Deus já é mais difícil, mexe mais connosco.

Não temos que ter medo nem sentir vergonha por experimentar esta dificuldade. A «doença» é já velha, muito velha, perde-se na noite dos tempos. No relato do Génesis, assistimos a este diálogo: «Ouviram, então, a voz do SENHOR Deus, que percorria o jardim pela brisa da tarde, e o homem e a sua mulher logo se esconderam do SENHOR Deus, por entre o arvoredo do jardim. Mas o SENHOR Deus chamou o homem e disse-lhe: “Onde estás?” Ele respondeu: “Ouvi a tua voz no jardim e, cheio de medo, escondi-me porque estou nu”» (Gn 3, 8-10). Daí para cá aprendemos muito facilmente a esconder-nos de Deus e a ver n’Ele um rival, apesar de enchermos a boca com expressões como: «Deus é Amor», «Deus só quer a nossa felicidade», «Deus nunca castiga», etc., etc.

Este é um problema fundamental em qualquer relação e, mais ainda, na relação com Deus. É o problema da imagem e do preconceito que temos das pessoas e o que isso influi positiva e negativamente na nossa relação com elas. Vamos começar a analisar esta questão no sentido de desmontar este mal-estar que nos habita no mais profundo e que, sem nos darmos conta, nos leva muitas vezes a procurarmos «boas razões» para não nos pormos a sós com Deus.

O que levou o homem e a mulher a esconderem-se não foi nenhum ralhete de Deus, nem sequer uma chamada de atenção, foi o estarem nus e perceberem esse seu estado de exposição, de fragilidade, a sua verdade. E isto, ainda hoje, nos custa muito: «Estarmos simplesmente como somos diante de Deus». Habitualmente, tendemos a mascarar-nos: «como achamos que devemos ser», «como gostaríamos de ser», «como achamos que os outros gostariam que nós fôssemos», e isto é simplesmente viver na mentira e fugir daquilo que podemos ser cada vez mais e que Deus nos convida a ser em cada dia, na relação com Ele e com os outros: a sermos nós próprios, a gostarmos de ser nós mesmos e a oferecermos isso ao Senhor e a cada pessoa com quem nos cruzemos no nosso dia a dia, porque foi para isso que Deus nos criou e vai criando únicos.

Por detrás deste mascararmo-nos, mais ou menos involuntário, está o querermos ser aceites, acolhidos, estimados, queridos por alguém. E disto não temos que nos envergonhar ou ter medo. Acontece assim com cada homem e com cada mulher, aqui e em qualquer parte, ontem, hoje e amanhã. E se o podemos dizer do nosso encontro com os outros, por maioria de razão o podemos dizer e dizemos de Deus, porque o maior e mais antigo anseio que habita o nosso coração é esse mesmo, o de sermos aceites, acolhidos por Deus. Desejo que nos habita a todos mas que, muitas vezes, somos tão desajeitados, tão tartamudos a exprimir.

Afinal, talvez Deus não tenha culpa nenhuma em não pararmos, em não olharmos para dentro de nós, em não escutarmos o que se passa connosco. O que talvez tenhamos a fazer, quanto antes, é procurar clarificar as nossas imagens de Deus. Que imagens nos habitam e acompanham no nosso dia a dia, quando estamos sós e quando em companhia, como foram surgindo, quem no-las transmitiu e de que forma elas vão ou não de encontro à imagem de Deus que Se nos revela em Jesus Cristo? Este é um árduo e longo trabalho de casa que temos de fazer. Não temos que ter medo, mas sim confiar, não temos que ter pressa, mas saber esperar. É um trabalho que não podemos fazer sozinhos mas em que teremos de nos abrir à ação de Deus. Ele, pela sua graça, responderá a esse nosso desejo de querer ter uma correta imagem sua que nos ajude a estarmos, na nossa nudez, a sós com Ele.

Sérgio Diz Nunes, sj

Fotografia de: Davide Cantelli (unsplash.com)