Uma passagem do livro de Oseias mostra como todos nós, homens e mulheres, somos, nalguma medida, herdeiros de Adão e Eva. Tal como eles, somos capazes de nos esconder de Deus e, quando Ele nos chama, afastamo-nos, vamos para longe (Os 11, 2). Também é verdade que, nesse mesmo livro, vemos como Deus continua, à semelhança do que constatamos no relato da Criação, em busca do Homem e da Mulher, querendo conviver com eles e desfrutar da brisa da tarde (Gn 3, 8-9).
Estes movimentos em sentido contrário põem em evidência que nem sempre olhamos para Deus como alguém que nos ama, que se alegra com a nossa existência. Por vezes, também olhamos para Ele de lado, vendo-O como um rival, como alguém que não está verdadeiramente interessado no nosso bem, que se relaciona connosco por interesse. Estas duas imagens coexistem em nós, ocupam o nosso mundo interior e condicionam o nosso rezar.
Jesus viveu isto mesmo nos começos da sua vida pública, quando Se afastou para o deserto, para estar a sós com o Pai. Também a Ele o Príncipe da Mentira, no deserto, à semelhança do que acontecera a Adão e Eva com a serpente, tenta enganar com o mito da autossuficiência , de não ser dependente de nada nem de ninguém. Mas Jesus, contrariamente aos nossos primeiros pais, não Se deixa enganar e aceita ser Filho, vivendo na dependência do Pai e desfrutando da vida como dom do seu Amor. Para que isto aconteça connosco, teremos que nos ir libertando da mentirosa imagem de Deus com que o Príncipe da Mentira nos tenta alimentar e abrirmo-nos à verdadeira imagem de Deus que Jesus nos vai revelando ao longo da sua vida. Por isso é que Jesus é o único que verdadeiramente nos pode ensinar a rezar, isto é, a pormo-nos, como somos, na presença de Deus numa atitude de escuta do que Ele tem a dizer-nos.
Só seremos capazes de parar, tal como somos, na nossa nudez, diante de Deus, quando formos capazes de olhar para Deus como alguém verdadeiramente interessado em nós, que nos dá tudo e que desfruta com cada momento da nossa vida. Isso acontecerá na medida em que formos aceitando que ser filhos de Deus não é podermos pôr e dispor, egoisticamente, das coisas a nosso bel-prazer, esquecendo-nos dos outros, e na medida em que formos aceitando viver em relação de dependência com Deus e em atitude de partilha com todos, experimentando, assim, que Deus é Pai e os outros são nossos irmãos.
Este caminho da falsa à verdadeira imagem de Deus é, por um lado, tarefa e, por outro, é dom. É tarefa enquanto exige da nossa parte disciplina, exercitar a vontade para encontrar o tempo necessário no meio dos nossos afazeres quotidianos para o encontro com Deus. É dom enquanto vai mais além do exercício da vontade e se torna, sobretudo, abertura e docilidade à graça de Deus. Iremos assim crescendo e passando de uma atitude infantil perante Deus a uma atitude de filhos adultos e responsáveis, à imagem e semelhança de Jesus.
A forma como Deus Se apresenta desde o primeiro ao último momento da sua vida entre nós é como «Aquele que está connosco» (Lc 1, 28 e Mt 28, 20). Jesus não diz que não teremos problemas, que a vida não será difícil, que não nos acontecerão coisas que nos metem medo. Ele não nos promete nada que nos aliene, que nos impeça de viver verdadeiramente como humanos, como homens e mulheres. Ele diz, muito simplesmente, que, aconteça o que acontecer, Ele nunca nos deixará sós, Ele estará sempre connosco.
A falar ou em silêncio, a rir ou a chorar, cremos que o melhor que pode acontecer a quem quer rezar é isto mesmo, experimentar que Deus está sempre ali, disponível, sempre connosco. Neste estar sempre connosco, Ele ir-se-nos-á revelando nos seus diferentes rostos, nas suas diversas formas de falar, de nos consolar e animar. Umas vezes, convidar-nos-á a contemplar os lírios do campo, outras, a partilhar dos nossos pães e dos nossos peixes, mas também a chorar com a viúva que leva o filho a sepultar ou a alegrarmo-nos com o Pastor que encontra a ovelha tresmalhada.
Fazer a experiência do encontro com este Deus que está sempre connosco ajudar-nos-á a viver as nossas Sextas-Feiras Santas, a suportar o silêncio dos nossos Sábados Santos e a saber conviver com as alegrias das nossas manhãs de Domingo de Páscoa.
Poder sentir de alguma forma que «Deus está sempre connosco» em cada momento da vida será revolucionário no nosso modo de olhar para o mundo, para os outros e para nós próprios.
Sérgio Diz Nunes, sj
Fotografia: Krisjanis Mezulis (unsplash.com)
